Epifitismo de Leo

abril 10, 2020

"Epifitismo é uma relação de 
inquilinismo entre duas plantas, 
na qual uma planta vive sobre a 
outra, utilizando-a apenas como 
apoio e sem dela retirar 
nutrientes e sem estabelecer 
contato com o solo."





Algures entre Lisboa e o resto do mundo


     Ás vezes, enquanto os carros passam, tento fixar a cara das pessoas. Claro que não consigo mais que um borrão de pele e, no geral, toda a gente me parece ter o cabelo castanho. Por uns segundos, fecho os olhos e imagino que estou dentro de um dos carros.      Por momentos sou eu que tenho a cara apoiada na mão e o nariz esmagado contra o vidro embaciado. Os olhos mortos na paisagem tremida, que os separadores da autoestrada nos deixam antever de vez em quando, nunca o suficiente, mas sempre tanto que nos faça tentar ver mais da próxima vez.
     Depois abro os olhos e volto a estar do lado da vida que está parado. Volto a vê-los como pessoas da cidade, com apartamentos brancos e carros pretos. Penso nas outras raparigas da minha idade, sentadas no banco de trás a olhar para a paisagem feia.
     Nas chaminés cinza que cospem fumo castanho, na linha do comboio que desliza aos solavancos entre uma fábrica de cerveja e a zona industrial.
     Aqui chove todos os dias, mesmo quando  não está a chover, está a chover. Estou sempre a limpar as lágrimas das janelas ferrugentas.
     Desisto de tentar ver alguém e baixo a escotilha do telhado. A esfregona espeta-se na pele fina debaixo do meu braço e salto do bidé para o chão. Olho a axila ao espelho e adivinho uma nódoa negra.
     Com a esfregona debaixo do braço e o balde na mão, baixo a cabeça para sair da minúscula casa de banho.
     Olho para as paredes à procura de uma barata que possa esmagar com um chinelo e quando não vejo nada ajeito as pontas do édredon. Saio e sopro para cima do número 15 espetado na madeira velha da porta.
     O corredor está escuro e húmido e a fita-cola que colámos no vidro depois de o terem partido começou a descolar.
     -A alcatifa das escadas precisa de ser aspirada.- A D. Branca diz-me, enquanto passa com um monte de toalhas para cima.
     Olho para o infinito tapete verde que veda o hotel e penso que o melhor mesmo, era ser trocado. Não me atrevo a dizer nada e guardo o balde e a esfregona dentro de um armário.
     São quatro da tarde de um domingo chuvoso e não há objetivo nenhum em aspirar a alcatifa verde agora.
     -Podes levar duas cervejas aos tipos que estão no café?- A minha mãe mete a cabeça de fora do escritório minúsculo debaixo das escadas e aceno.
     Enfio os chinelos no dedo e passo pelo estreito corredor que dá ao balcão do café.
    -Boa tarde.- Murmuro antes de abrir a arca frigorifica. Só temos Sagres. Eles devem saber, aparecem aqui no último fim de semana de cada mês.
    -Um e trinta por favor.
    Um deles, o de barba, procura as moedas no bolso e outro olha para mim. Nunca me respondem quando lhes digo boa tarde.
    -Que idade tens?
    Mentalmente começo a tirar nota das suas feições. O queixo quadrado, os olhos côvados e olheiras enormes.
    -Porquê?- A minha mão continua estendida enquanto o barbudo continua a contar dinheiro e a atira-lo para a minha palma suada.
    -Pareces muito nova para poder trabalhar aqui.- Tem olhos azuis desconfiados.
    -É da inspeção?-  Pelo peso do dinheiro tenho a certeza de que falta. Desço o olhar para confirmar que, de facto, colocou moedas pretas para me tentar confundir.
    -Faltam vinte cêntimos.- Os olhos dele abrem num esgar.
    -Tens mais?- Pergunta ao amigo.
    O dos olhos azuis mete-me uma moeda de vinte cêntimos na mão e depois vira-se para o colega novamente, esquecido da pergunta que lhe fiz.
    Abro a caixa registadora e depois de a fechar coloco  a chave no bolso das calças. Viro-me para sair mas, o arrastar das cadeiras para-me.
    -Podes deixar o comando da televisão?
     Viro-me para trás. Nenhum deles está a olhar para mim.
    -Não.
    Atravesso o túnel estreito e um arrepio faz-me meter as mãos nos bolsos. Tenho saudades do verão, geralmente são os miúdos que me pedem o comando da televisão, e quando vou à arca é para ir buscar gelados.
    -Podes aspirar a alcatifa Léo?- A minha mãe volta a espreitar pelo escritório.
    -O meu turno já acabou.- Aponto para o relógio na parede.
    Quando era miúda eu e os meus irmãos costumávamos adiantar o relógio. Os turnos acabavam mais depressa assim. Claro que, como nos riamos todos da esperteza de puxar os ponteiros para a frente, acabávamos por nos denunciar.
    Há medida que eles se foram embora, um de cada vez, adiantar as horas começou a perder a sua graça. Primeiro ainda nos riamos, mas tal como os dias que se iam arrastando, também a nossa gargalhada se foi desvanecendo. Agora parece estupido, esticar as horas só para ficar no mesmo sitio, a fazer o mesmo tipo de nada.
    -Então fica para amanhã pode ser?- Ergo-lhe um polegar no ar e subo as escadas novamente.
     A alcatifa verde deixa-me enjoada, mas as paredes amarelas não são muito melhores. Quem é que pintaria uma parede de amarelo? De propósito?
     O meu quarto é último à esquerda no corredor principal. A confusão de portas e o entrar e sair em que vivi a vida toda, deixou de me atordoar mas, ainda é insuportável não saber quem é que dorme no quarto ao lado do meu.
      Abro o número 17 e fecho-o à chave. O meu quarto é único que ainda tem o papel de parede antigo. Flores enjoativas que rastejam pelas paredes, para cima e para baixo numa onda dos anos 50.
      Debulho as toalhas que a D.Branca deixou em cima da minha cómoda mas, a única que quero falta-me. Desço as escadas para ir buscar a toalha de banho.
     -Boa tarde.
      Olho para o escritório da minha mãe, com a porta fechada. Nem vale a pena tentar subir, ele já me viu.
      Viro-me para o rapaz de saco ao ombro. Já lá vai o tempo em que eu me ria para os hóspedes. Também já lá vai o tempo em que me achavam engraçada.
     -Boa tarde. Posso ajudar?
      Ele sorri, a pronuncia carregada do Alentejo.
     -Sim, precisava de um quarto.
      Pelo canto do olho espreito o parque de estacionamento. Vazio. Deve ter vindo no comboio.
     -Só para esta noite?
     -Sim.
     -Meia pensão ou pensão completa?- Puxo o livro de registos debaixo do balcão e bato com a caneta de tinta azul contra palma da mão.
     -Depende, há bons restaurantes por esta zona?
      Por dois segundos, faço uma pesquisa rápida a este lugar, estacionado para sempre ao lado de uma auto estrada. Entalado entre a fabrica de cerveja e a industria de cimento. O único restaurante que conheço por aqui é o do Hotel e um Burguer King ao pé da rotunda, onde ninguém mete os pés desde a inauguração.
     -Não. Há um Burguer King.- Aponto com a caneta para norte.- Ao pé da rotunda do centro.
      -E vocês têm restaurante?- Ele espreita para a minúscula sala de jantar.
      -Exato.
      Entrega-me o cartão de cidadão e começo a preencher os dados no papel sarapintado de preto. Heitor Claro surge em letras gordinhas no cartão.
      Ele poisa o cotovelo no balcão e começa a brincar com um cigarro no balcão.
     -Não pode fumar aqui.- Digo-lhe mais em jeito de aviso do que propriamente advertência.
     -Eu sei. Tens ali um sinal.
     Continuo a preencher os dados. Detesto fazer a parte do pagamento.
    -São vinte euros por favor. Quer fatura?- Tiro o bloco de papel químico amarelo de uma gaveta e ele ri-se.
    -Não tens computador?
    Contemplo responder-lhe, mas o trabalho que me daria carregar uma conversa com ele aos ombros tira-me a vontade.
     -Não.
     Ele diz-me que quer fatura e copio os números do cartão de cidadão. Peço-lhe a morada. Vive em Lisboa. Mete o cigarro na boca e depois volta a tirá-lo. Os dedos grandes pegam no cigarro, qual guindaste, e coloca-o atrás da orelha.
     Paga-me os vinte euros e depois passo-lhe a chave do número quinze. Mete o saco ao ombro novamente e desaparece, engolido pelas paredes amarelas e a alcatifa verde.
     -Temos hóspede?- A minha mãe abre a porta do escritório. Eu sabia que ela estava a ouvir. Ergo um polegar para cima, porque sei que ela está a ver.
  
**

      Abro a janela do meu quarto e meto um pé de fora. Depois o outro. Sento-me no parapeito da janela e os meus pés tocam nas telhas laranja enquanto o sol se põe-se, para lá da corrida negra que desliza por entre as barreiras verdes. Nesta altura do dia, os carros desaparecem e só se veem as luzes. O vermelho para quem vai e o amarelo para quem vem. À noite é mais difícil imaginar as vidas das pessoas e para onde vão, porque são todos o mesmo. Não me consigo projetar no escuro.
      Um cão vadio passa pelo quintal e cheira a capoeira das galinhas. Agarro numa pedrinha e atiro-a contra o latão que lhes cobre as cabeças. Tanto elas como o cão despertam.
       Oiço o ferrolho da janela ao lado da minha abrir. Ele faz força e, pergunto-me quanto tempo até perceber que tem de empurrar para a frente, antes de girar o mecanismo pré-histórico.
       Ele descobre rápido, vejo a ponta do cigarro vermelho a brilhar no escuro. As luzes do passeio à muito que deixaram de funcionar, então só se vê o que luzir. Por isso é que nos partem a janela do corredor tantas vezes. Eu já lhes vi as silhuetas. Primeiro acertam na parede. A tentar. A testar. E depois a partir.
       -Posso fumar aqui?- A cabeça dele força-se pela janelinha da casa de banho. Os ombros espremidos contra o rebordo gelado.
      -Desde que não partas o bidé.- Volto a olhar em frente. Não pensei que ele viesse espreitar cá fora. Nunca ninguém o faz. Nunca ninguém usa a minúscula casa de banho. Não ficam cá tempo que justifique uma porcaria dessas.
      -Como é que te chamas?
A sua voz confunde-se com o fumo branco.
      -Eu?
Claro que sou eu. Mas nunca digo o meu nome aos hóspedes. Também nunca lhes pergunto o deles.
      -Tu.- Ele suga outro suspiro ao cigarro.
Se lhe disser o meu nome ele vai usá-lo para me chamar. As pessoas usam nomes para isso, mas aqui ele vai usá-lo porque precisa de alguma coisa.
      -Léo.- Olho para ele. A minha língua mergulha no espaço entre os meus dentes da frente.
Ele sorri.
      -De Leonardo?
     Demoro-me mais tempo na cara dele do que gostaria. O nariz aquilino e os maxilares quadrados. É uma cara quase grosseira. Quase.
      -Exato.- Digo com ironia, enquanto esfrego os pés contra o tijolo áspero.
Ele não diz mais nada, e puxo as pernas para dentro.
      -Até amanhã.
      Ergo-lhe um polegar e fecho a janela. Abro a porta que separa o meu quarto da minúscula casa de banho sem janelas e lavo os dentes. Os meus dedos encaracolam-se no plástico enquanto faço penso. Pergunto-me, pela trigésima vez, se algum dia quererei sair daqui.
      Todas os dias, em que me imagino num daqueles carros, numa direção não oposta, mas tão longe daqui, que tudo isto me vai parecer o mesmo, mas ao contrário. Será vou estar dentro de um carro, a olhar para o pequeno hotel de beira de estrada e a pensar em quem lá vive? Nos dias de chuva que nunca passam? Nas nuvens que não levantam e no sol que se recusa a vir brilhar neste pedaço de terra acinzentado? Porque até o sol é elitista.
      Cuspo a pasta de dentes e puxo o fio que desliga a luz. Ás apalpadelas sinto o colchão e deito-me. Os lençóis arranham-me a pele fria e tapo a cabeça. Bafejo algumas vezes, só o suficiente até a minha respiração abrandar por conta própria.

 **

       Arregaço as mangas da camisa azul desbotada e, aperto o lenço na cabeça enquanto viro os ovos na frigideira. Como nunca há muitos hóspedes não faz sentido termos comida a rodos.
       Sento-me a comer e desvio os olhos para o programa da manhã. A minha mãe ainda não se levantou e a D.Branca só vem fazer o turno da tarde. A hora do pequeno almoço acaba ás dez.
       Gostava que os meus olhos não se desviassem tantas vezes para as escadas. Tento dizer a mim mesma que estou à espera da minha mãe, ou que quero só saber se preciso de cozinhar para alguém. Agora que já tirei o avental não me apetece voltar a colocá-lo.
      Meto outra garfada de ovos à boca e viro a atenção para a televisão. Uma plateia de gente bate palmas. O apresentador fala com algumas que tentam mandar o seu amor através do ecrã.
      -Cheira bem. Ainda posso tomar o pequeno almoço?
Viro-me para trás e ele está a olhar para mim. Tem uma camisola ás riscas e umas calças de ganga vestidas. Olho para o relógio. 10:08. Suspiro e levanto-me.
     -Alguma coisa em especial?
     -Torradas com ovos mexidos e café por favor.
Ele senta-se na mesa pequena perto da cozinha. Levanto o meu prato e levo-o para o lava-loiças. Faço as coisas metodicamente. O meu pai costumava queixar-se da minha lentidão, como se estivesse sempre a testar o limite da paciência das pessoas. Não estava. Há medida que fui crescendo os meus movimento foram-se tornando mais metódicos, mais retos, menos vivazes.
      Poiso-lhe a comida à mesa e tiro avental.
     -Vives aqui.- Os olhos dele não deixam a comida e ele leva uma garfada à boca.
Ele não me perguntou, o que faz sentido porque me viu ontem à janela.
     -Sim.- Dobro o avental e vou até à cozinha.
Guardo-o numa gaveta e começo a lavar a loiça. De onde ele está sentado consegue ver-me. Espreitar para dentro se quiser.
     -O que é que fazes para te divertir por aqui?
Sinto a água na borracha das luvas cor de rosa. O que é que faço para me divertir? Olho para a rua como se fosse um cinema. Mas não qualquer rua, precisa de ser longe o suficiente para a realidade não me destruir o sonho.
      -Vejo filmes.
      -A sério? Reparei que não há wi-fi.
Um caracol castanho cai, obstinadamente para o meio da sua testa.
      -Não temos wi-fi.
      -Então como é que vês filmes?
O sorriso dele não desaparece enquanto bebe um gole do café.
      -Tenho DVD´s.
      Baixo-me para apanhar o esfregão e quando me levanto, os olhos dele estão colados à televisão. Engulo em seco. Não sei como me sentir em relação a isto, nunca falo com clientes, e a sensação de ter alguém a falar comigo sobre mim é estranha.
     -Léo podes ir aspirar a alcatifa?- A minha mãe espreita pela ombreira da porta da cozinha.
     -Sim.
      Ela sai e fico a olhar para as manchas rosa, escondidas pela espuma branca do detergente no fundo do lava-loiças. A borracha come-me a ponta do dedo quando a esfrego contra o metal, agora quente pela água.
     -Onde compras esses DVD´s?
Ergo os olhos e tiro a mão da água.
     -Há uns chineses no fundo da rua. Eles sacam-me os filmes e séries da net e depois vendem-mos.
      Desta vez ele não sorri. Faz um trejeito com os lábios e foca a atenção no apresentador de televisão.

**

     Enquanto aspiro a alcatifa verde, ele vai até ao balcão. Não o vejo bem, mas a minha mãe está a falar com ele, enquanto lhe devolve a chave e ela a guarda atrás do balcão. Há sorrisos trocados, e por um segundo sinto-me estranha. Ele mete o saco ao ombro e sai. Vejo a campainha a mexer-se, mas não a oiço. O barulho do aspirador abafa-me o pensamento e foco-me numa mancha amarela que não vai sair, por muito que a escove.

**

     Nunca ninguém aparece à hora do almoço, por isso sou só eu e a minha mãe. Ela serve uma porção de arroz e eu tiro um bifinho da panela. As noticias, cantam-nos ao ouvido resultados de jogos de futebol que nenhuma de nós nunca viu.
    -Vais fazer alguma coisa à tarde?
    É quarta feira, a minha tarde de folga.
    -Não.
     Ela continua a mastigar e eu continuo à espera que ela me peça para limpar alguma coisa.
    -Podias ir dar uma volta.- Os meus olhos encontram os dela.- Se quiseres claro.
Sorrio um bocadinho e poiso o copo na mesa.
    -E ir onde?
    Ela parece surpreendida. Provavelmente achou que eu andava ansiosa por uma oportunidade para sair daqui. A verdade é que não há nenhum sitio onde eu queira ir, nem ninguém com quem ir. Para ir sozinha a alguma lado, prefiro a minha companhia aqui.
    -Não queres ir a Lisboa? Podias voltar no comboio das oito.
Não me lembro da ultima vez que fui a Lisboa, talvez numa visita de estudo antes de toda a gente se ter ido embora.
    -Acho que vou ver um filme.
Nenhuma de nós diz mais nada. De repente, é como se o pequeno preludio em que falámos sobre isto, se tivesse evaporado e as coisas tivessem caído nos eixos novamente.       Levanto-me para tirar a mesa e coloco os pratos numa pilha ao lado no lava-loiças. Agarro na toalha da mesa e vou à rua pela porta das traseiras.
Sacudo as migalhas para o terraço e olho para as galinhas a raspar na rede.

**

     Baixo o ecrã do leitor de DVD´s  e olho lá para fora. O sol está a pôr-se e o céu sucumbe ao laranja e cor de rosa.  Os riscos dos aviões cruzam-se e vejo um a avançar lentamente, enquanto trepo pela janela e me sento no telhada. Sempre achei os aviões mais complexos que os carros. Consigo fixar-me neles mais tempo, mas consigo imaginar-me menos dentro deles. 
      Ás vezes, sigo-os até começar a fazer jogo de resistência comigo mesma. Consigo olhar para o outro lado e encontrar o avião outra vez? Quando deixo de os ver, também deixo de ver tudo aquilo em que pensei enquanto olhei para eles. Imagino as pessoas, sentadas à espera de ir para as suas casas. A lutar pelo seu espaço no aeroporto, a falar ao telemóvel. A falar línguas que só percebo com legendas. Esses países distantes, as ruas, os supermercados. Vidas individuais que se perdem na coletividade... e depois deixo de os ver.
      Baixo os olhos para os carros na autoestrada. Está um parado, com os quatro piscas ligados. Ás vezes um impaciente sai do carro, embora seja proibido. Uma vez vi um ser colhido por um camião. Fiquei muito tempo a ver e rebobinar a imagem na minha cabeça. Foi tão de repente, a força do ar atirou-o contra o chão e a policia...
     -Posso sentar-me aí fora?
Salto no meu lugar e travo o pé numa telha.
    -Desculpa não te queria assustar.- Ele estende uma mão, mas não sei porquê. Se tivesse que cair, já estaria lá em baixo. Com ou sem mão estendida.
     Ele mete as mãos nas telhas e ergue-se pela estreita janela. Um pé de cada vez, e senta-se.
     Pensei que se tivesse ido embora. Só marcou o quarto por uma noite e hoje saiu com o saco.
    -Importaste que fume?- Ele abana o cigarro à frente da cara.
     Aceno-lhe e volto a concentrar-me nas formigas trabalhadoras que desaparecem dentro do túnel. Oiço-lhe o isqueiro e depois o primeiro e segundo trago. Ele não diz nada, ouve-se o gemido do vento a ser esquartejado ao longe e as arvores a achocalhar. O gerador da fábrica de cerveja corrói o ar com um som branco e sinto-me demasiado observada para descontrair.
      -Então Léo porque é que estás aqui fora? 
Pela segunda noite consecutiva? Tenho que me rir. O gesto rasga-me as bochechas e sinto um ardor na ponta dos lábios. Pela segunda noite consecutiva? Já lhe perdi as contas. O meu irmão é que me costumava trazer aqui. Subia primeiro e depois puxava-me. Lembro-me da dor debaixo dos braços, enquanto ele me erguia como um peso morto.
   -Estou sempre aqui. – Nunca deixei de estar aqui.
   -Não falas muito.- Ele inspira o cigarro e depois fecha os olhos com força antes de se libertar do fumo branco.- Nem sequer me perguntaste o meu nome.
   Desvio os olhos da monovolume branca que se despacha a desaparecer e concentro-me nele. Os olhos azuis e a pele bronzeada, provavelmente de um trabalho ao ar livre.
  -Chamas-te Heitor.
   Ele sorri.
  -Pois é... dei-te o meu cartão de cidadão.
    Nenhum de nós diz mais nada, mas as palavras são viciantes. Mesmo quando não tenho mais nada para lhe dizer, o meu cérebro não para de pensar em coisas que o façam falar. É disto que tenho medo, de começar a falar e nunca mais me calar.
     Resigno-me ao desejo de virar o pescoço e deixo de seguir os pontos que se mexem na estrada.
    -Porque é que vens aqui para cima?- Pergunta-me enquanto leva o cigarro aos lábios.
    -Porque gosto de ver os carros passar.
    -Gostas de carros?
      As perguntas dele magoam-me. Nunca ninguém me pergunta nada e quanto mais ele me pergunta, mas eu lhe quero responder. Quero dizer-lhe que não gosto propriamente dos carros, é das histórias das pessoas e da carnificina que cometo quando as apago e me coloco no lugar delas.
     -Gosto de me imaginar lá.- Aponto para os carros.- A ir viver as vidas deles.
Nunca disse isto a ninguém. Agora que o disse em voz alta, percebo que talvez haja uma razão para isso.
     -E porque é que não tentas? Ir viver essas vidas?
      Encolho os ombros.
     -Não quero.
     -Não queres ou não podes?- Sinto o cheiro do tabaco envolver-me.
     -Ambas. Há alguma diferença se nenhuma me impede de fazer aquilo que quero?
Ele sorri.
     -Bem pensado.
      O cheiro do fumo e do silencio vão-se com o sol e vejo-o esmagar o que restou do seu cigarro com o pé. Os dedos dele brincam com uma telha. São grandes e calosos, e ele esfrega-os contra a pedra como que a lixá-los. Gostava de me lembrar dos dedos do meu pai e dos meus irmãos.
     -Essa coisa que fazes.- A sua voz perfura a escuridão que começou a descer. A partir de agora é como os aviões. Uma vez ou outra, vou virar a cara e ele deixará de aqui estar. – É um epifitismo.
       A palavra-me soa-me a epifania, mas não acho que isto possa ser uma. Acho que ele sorri, mas já só lhe vejo a forma do rosto.
    -É uma relação entre duas plantas. Na qual uma vive em cima da outra, mas nunca sem lhe retirar nutrientes. Serve-se dela apenas como apoio, para nunca tocar no solo.- Encosto-me para trás, com as telhas a moldar-me as costas de forma irregular.- Tu vives aqui em cima, a olhar para eles, a sugar-lhes as vidas que se calhar não tem, e em troca não precisas de ir viver.
     Ele recosta-se também.
    -Então sou um parasita?- Riu-me. O som brota-me dos pulmões e sabe-me bem contra as costelas.
    -Não. Nas relações de epifitismo ninguém tira a ninguém. É só existir.
    -Existir não é mau.- Encolho os ombros. Agora só o oiço. A cara dele, o corpo dele, deixou tudo de existir.
    -Não, não é.
     Gostava de lhe tocar agora, porque não me parece que seja real. Porque parece que estou a falar para a noite e que ela me está a responder. É mais fácil quando não vemos as pessoas. É mais fácil só ouvi-las e falar com elas quando não têm forma. Quando a cara não emite expressão e os olhos são difíceis de ver.
    -Mas eles também te podem ver.
     O meu coração dispara por alguns segundos que se tornam minutos. Sinto-o no topo do estomago e atrás das minhas orelhas. Viro a cara, os olhos nas luzes de travagem dos carros. Eles também me podem ver. Quando volto a abrir os olhos não o oiço, não o vejo, nem sei se ainda aqui está. Mas também não estendo o braço para o comprovar.




Links onde devem clicar

abril 06, 2020

Há tanta coisa desinteressante na internet, que é preciso uma máscara (de mergulho), uma garrafa de oxigénio e muita coragem para ver, com olhos desinteressados toda a informação, conteúdo, o que queiram chamar-lhe, que nos aparece nos feeds, por isso decidi criar esta lista semanal, chamada "Links onde devem clicar". Aqui a única a oferecer o peito ao clickbait sou eu, para vocês poderem desfrutar de algum conteúdo de qualidade. 

Vamos começar com o youtube e, no próximo post vamos a leituras.


Relatório BD - Diogo Batáguas.

Política, desporto, sociedade, comédia...estes relatórios mensais que o Diogo Batáguas faz são a minha muleta de fim de mês. Para além de dar para rir a brava da quantidade de pseudo-celebridades que o processam, dá-me sempre um boost para enviar as partes em fala do sporting ao meu pai por whatsapp.





WATCH: "The Big Chop"

Lembro-me de ver e rever "Hair Love", a animação da Sony que ganhou um Óscar, e reparar com interesse numa outra curta chamada "The Big Chop".
Tal como "Hair Love", esta curta leva-nos através do dilema de várias crianças e mulheres pretas, que ainda receiam o seu verdadeiro cabelo, com medo do julgamento que uma sociedade falsa moralista. 
Este obviamente não é o meu lugar de fala e, há imensos canais de youtube que se aprofundam no tema de forma muito mais elaborada e de um ponto de vista mais educativo, mas é interessante pensarmos e refletirmos no poder das palavras e no quão duradouro é o seu efeito. Pensarmos também nas nossas atitudes e formas de olhar o mundo enquanto sociedade.




Henry's Obsession With Anne Boleyn 


Um documentário que está acessível a todos no youtube. Para quem gosta de história e sempre achou intrigante e bizarro o reinado e vida do Rei Henry VIII (sim, aquele que mandou quase todas as mulheres para a guilhotina), aqui fica a sugestão. 
Para além disso, também foi este o senhor Rei que cortou relações com o Papa. 




Bill Gates: A próxima epidemia? Não estamos preparados


E como seria de esperar, alguma informação sobre a palestra onde Bill Gates previu o aparecimento desta pandemia. É só de salientar que Bill Gates não previu isto antes de toda a gente, ou que não partilhou a informação com os grandes homens à frente do "mundo livre". A diferença entre Gates e os outros é que ele acreditou, e a maioria dos políticos preferiu ignorar. Até porque toda a gente sabe que assim que o 5G é inventado, os humanos e a sua inteligência deixam de ser vulneráveis aos mais comuns perigos mortais. 





How wildlife trade is linked to coronavirus


O video mais importante que vi desde o inicio desta pandemia. É fácil comprarmos um virus
"da china" (estou a gozar, não devia), mas é. 
É preciso compreender como e porquê. Quais as condições que permitiram que o mesmo acontecesse?
 Não é viável culpar a China por uma atitude que qualquer país teria para salvar a sua economia, o que ,aprendermos recentemente, não é tudo. 
Gostava só de salientar um aspeto muito importante do video: o comercio de animais selvagens começou, em primeiro lugar, para matar a fome a milhões de pessoas. Não estou a defender a dizer que é correto, mas é sem dúvida, importante.









A Ninfa Inconstante de Guillermo Cabrera Infante | Opinião

abril 05, 2020

Talvez o titulo deste post devesse ser "o livro que não consegui terminar" mas, achei que assim estaria a ser muito tendenciosa. De qualquer forma, o facto de o esclarecer nas primeiras linhas equilibra as coisas.


Comecei a ler este livro com uma expectativa enorme e talvez esse tenha sido o primeiro erro, mas com uma premissa tão boa, qualquer um cairia na mesma armadilha.
Fala-se de uma jovem rapariga de 16 anos e, de um plano ardiloso que seduz e manipula um critico de cinema, tudo isto com um cenário de cortar a respiração; Havana.
O autor, pelo que consta na contra capa é conhecido pelos seus jogos de palavras, referencias incontáveis e "sentido de humor único".
O problema logo começou no prólogo, onde o autor nos tenta convencer de que somos demasiado estúpidos para entender o que ele está a dizer: este livro pode ser, ou não ser, sobre uma história pessoal minha, mas é mais provável que seja.
E talvez o problema seja meu, que não tenho paciência para ler a mesma coisa escrita de quatro maneiras diferentes, mas tudo isso se perdoa no inicio. Aliás geralmente perdoamos a falta de ação no inicio de um bom livro, sabemos todos como é difícil, em meia dúzia de páginas criar um ambiente familiar ao leitor.
Mas isto arrasta-se quando já conhecemos Estelita, que tem 15 anos, mas fala e comporta-se como uma mulher muito mais velha e, esse critico de cinema que fica por nomear (provavelmente por ser o próprio autor a falar de uma história de infidelidade com uma menor).
A dinâmica do casal nunca é romântica (o que até pode ser bom) e há um profundo desinteresse de ambas as partes. Mesmo quando o narrador, esse tal critico sem nome, quer elogiar Estela, acaba por a insultar (ela tem tornozelos gordos aparentemente).
O livro é uma constante provocação a tudo aquilo que achamos que faz um romance. Estela nada tem em comum com este homem, que com as suas mil referencias literárias e cinematográficas mais parece falar para uma parede, do que para a jovem por quem está obcecado.
Estela é uma personagem intragável e arrogante, e o seu companheiro desinteressante e soberbo da forma mais estúpida possível.
E o livro é isto, um arrastar de quatro formas diferentes de dizer a mesma coisa, trocadilhos e uma falta de interesse tão grande em personagens tão lisos, que nada resta para nos cativar, nem a maravilhosa cidade de Havana.
A inteligência do autor e a sua língua afiada perdem-se num enredo tão sem graça, que comecei a ficar mal disposta só de ter que pegar no livro.
Nunca deixo um livro a meio, mesmo quando não me agradam tanto, mas recuso-me a sofrer para ler, e este livro, que eu esperava difícil, tornou-se insuportável.

ps- Eu sei que este é um autor aclamado e que qualidades devem ser-lhe reconhecidas, no entanto este não é o tipo de escrita/leitura com o qual me identifico.

Cem Anos de Solidão

março 16, 2020

É difícil colocar em palavras o inicio e o fim do mundo, e é um verdadeiro tesouro, encontrar um livro que condense quase dois séculos de história familiar em pouco mais de 350 páginas. Gabriel García Marquez preenche finalmente o seu devido lugar na sombra que até hoje se encontrava sem corpo na minha estante. 

Livro: Cem Anos de Solidão
Autor:Gabriel García Marquez
Preço:10,00€ € (na wook
Páginas: 375
ISBN: 9789722059961

Cem anos de solidão é um livro que está para a humanidade, como a batalha de Aljubarrota está para os portugueses. Nascemos a saber sobre isso e morremos com a certeza de que o deixamos como o encontrámos: com os outros.
Assim, torna-se difícil opinar sobre um livro que já era considerado uma obra mundial, antes mesmo de ter nascido.
Existem várias teorias que cobrem o nascimento de Cem Anos de Solidão, mas a história que mais me adoçou o imaginário foi, não a de como nasceu, mas a de como foi se foi criando e ao longo do tempo espalhando, até anteceder o rufar dos tambores que o esperavam, tão ansioso que estava o mundo por o ter. Deixo-vos aqui o link para lerem.
A primeira coisa que me espantou mal abri o livro, foi a árvore genealógica que antecede a leitura, que já agora é começada completamente ás escuras se levarmos em conta a contra-capa. E comecei a passar os dedos pela árvore e a reparar nos nomes que se repetem de geração para geração e nas anomalias incestuosas que nos fazem, à medida que lemos, prever que tipo de desgraças de vão suceder.
Temos aqui sete gerações de uma mesma família, à qual podemos associar o inicio de um pequeno mundo: Macondo.
José Arcadio e a mulher Ursula Iguáran fundam, com mais algumas famílias, esta terra onde a magia se mistura com a realidade, onde existem tapetes voadores e a alquimia é uma verdade, difícil, mas verosímil e isso, fez-me questionar que tipo de género estaria eu a ler: realismo mágico.
E no principio viajamos entre a ténue linha do que é verdade e não é, até decidirmos que é melhor tomar como certa aquela magia, para o bem da história e isso é algo que o autor faz muito bem, mergulha-nos devagar no enredo mítico das primeiras gerações, para depois, com o mesmo vagar, nos começar a molhar com a realidade, até que de repente estamos embrenhados num realismo cru e confuso que nos deixa a pairar no pensamento uma nostalgia da inocência das primeiras gerações.
Para além da maneira como Marquez nos manuseia ao longo da história, sem nunca perder o controlo nem dos personagens, nem dos leitores, uma das coisas mais incríveis da sua maneira de contar uma história, reside na facilidade com que, sem nunca descorar os pormenores nos conta tanto, em tão pouco papel.
O meu livro tem 378 páginas, onde morrem e nascem 7 gerações de uma família, onde há guerras, o aparecimento da religião, o colonialismo, aparecimento do combóio, capitalismo, liberais, pestes e inundações que duram anos e mesmo assim, o autor ainda tem a delicadeza, quase ternurenta de escrever algumas palavras na sua forma diminutiva. O livro nunca perde o folgo, está tudo tão condensado de uma forma tão livre que não damos pelo tempo passar e quando alguém morre, é uma surpresa, mesmo no caso de Úrsula, que viveu 122 anos que a mim me pareceram 250.
Claro que não são só coisas maravilhosas: é preciso ganhar-se ritmo e ceder-se aos caprichos inicias do autor, que não nos deixa esquecer que a magia existe, até que o admitimos e depois desaparece mas sem realmente nunca deixar de acontecer e entender que os nossos personagens favoritos não vão viver para sempre.
Pessoalmente, eu não sei se toda a gente que começou este livro o terminou, mas sei que vale o esforço porque nunca li uma obra tão bem escrita, com um enredo tão complexo, mas que apesar disso, nunca deixou de ser fascinante.



Os Imortalistas de Chloe Benjamin || Opinião

fevereiro 06, 2020

E se soubéssemos a data da nossa morte? Em "Os Imortalistas" Chloe Benjamin reune aquele que é tanto o maior medo, como o maior desejo da humanidade; saber em que dia se vai partir.


Livro: Os Imortalistas
Autora: Chloe Benjamin
Preço: 19,95(na wook), comprei o livro com dinheiro acumulado do cartão, porque este preço é um escândalo...E DEPOIS QUEREM QUE AS PESSOAS LEIAM MAIS!
ISBN: 9789897772023

Foi impossível ler a contracapa de "Os Imortalistas" e ficar indiferente. Quantas vezes nos apanhamos a deambular na corda bamba que é o fim da vida? Quando será? Como será? A única coisa que sabemos é que vai acontecer, e tal como a pergunta de "há vida depois da morte?", a morte em si é também uma resposta que nunca vamos ter.

O cenário que se constrói é simples e aconchegante: uma família judia que vive na zona menos nobre de Nova York. Quatro irmãos entre os 7 e os 14 anos que um dia, descobrem que uma vidente consegue prever a data da sua morte. Por ordem cronológica (porque é importante) os irmãos são: Varya, Daniel, Klara e Simon. E embora a premissa do livro seja que todos eles sabem em que dia vão morrer, há também o facto acreditar. Os dois mais novos acreditam e os dois mais velhos não e assim se passam quase 50 anos, em que Benjamin, ao longo de quatro capítulos principais nos conta sobre as vidas de cada um deles, começando do mais novo, para o mais velho.

Embora a ideia da narrativa seja simplesmente genial, porque honestamente é a coisa mais aliciante do mundo brincar com a morte de uma maneira tão óbvia, senti que a autora, por ser um tópico em si tão pesado, decidiu abordar a narrativa da forma mais leve possível, deixando sempre no ar a perspetiva da data da morte de cada um deles, mas nunca sem que parassem de viver por isso. Aliás, digno de um Scrooge, só quando pressentem a morte, se lembram da vidente com mais pujança e neste caso, aconselho que, ao contrário de mim, não vasculhem o livro, à procura de quando vai começar e terminar um novo capitulo (estraga o efeito surpresa).

A meio disso tudo, é na transição da infância para a idade adulta, que o livro ganha força. É quando o pai, Saul morre atropelado que se começam a desencadear as vidas de cada um, e é um movimento calculado dar o ponta pé de partida, com a morte de alguém, já que o fio condutor das vidas dos quatro se vão unir, sempre dessa forma, quase que num efeito dominó.

E depois dá-se, o partir ao meio da família, onde os dois mais novos são a ponte para a "felicidade", talvez pela despreocupação que os filhos mais novos carregam, no seu olhar sobre o mundo; e os mais velhos, sérios e precavidos sempre incrédulos, com o egoísmo dos mais jovens, são tudo aquilo que é calculado.  

Para ser sincera os meus personagens favoritos foram exatamente os mais novos, Simon e Klara, porque me pareciam muito mais honestos nos seus desejos que os restante, especialmente Klara, que é, sem dúvida a personagem mais forte do livro. Uma jovem destemida, muito ao estilo badass que quer ser ilusionistas, não obstante o que as pessoas possam pensar disso. Para além de ser a personagem que foi melhor construída, é também a que tem o fim mais trágico. 

Olhando para o livro como um todo, aquilo que mais me impressionou foi a forma de escrever de Benjamin, não é simples mas também não é complicada, no entanto, é como se nada fosse escrito por acaso de uma forma tão intrínseca, que se pode ficar cansado só de imaginar o esforço ou talento que uma pessoa pode ter para escrever daquela maneira. 

No entanto, não obstante a forma maravilhosa como escreve, o livro vai perdendo muito da sua magia à medida que avança em direção ao final, sendo que talvez até isso seja proposital; o brilho e ferocidade com os primeiras capítulos são escritos, está à medida dos seus personagens e o facto de Varya ser deixada pra último só pode ser relacionado com isso. A certeza com que sempre viveu, sem se arriscar, faz com que esse seja ao mesmo tempo o derradeiro, mas mais penoso capitulo de se ler.

Se quiserem ler com banda sonora, está aqui a playlist que criei que deu um bom ambiente à leitura. É uma ótima forma de criar memórias afetivas com os personagens e livros. 

True Story || Opinião

janeiro 26, 2020

Um excelente filme, à margem de "Gone Girl" no sentido de a sensação ser exatamente a mesma; é como se estivesse escuro e não soubéssemos em que lado da cama nos encontramos. 



True Story é exatamente aquilo que significa. Uma história verídica. Um homem é preso e acusado de matar a família (mulher e três filhos), uma versão mais "soft" de Ted Bunker. É charmoso e tem no olhar a profundidade de quem se consegue camuflar e adaptar a qualquer pessoa. 

Quando Christian Longo é capturado pela policia no México, utiliza o nome Michael Finkel, um jornalista do The New York Times que deixa que a sua soberba e orgulho o levem longe de mais, numa peça sobre crianças maltratadas em plantações Africanas. 

Depois de Mike ser despedido, começa toda uma jornada em nome próprio para se recompor do escândalo e isso leva-o a procurar outro, ainda maior. Entre a namorada Jill, e o serial killer podem adivinhar a quem escolheu dedicar a sua atenção.

Quer saber mais sobre o homem que matou a família e utilizou o seu nome, quer saber mais sobre o homem calmo e sereno que quer aprender a escrever como ele.
Pensei seriamente em rechear esta opinião de spoilers mas acho que isso arruinaria o trabalho especialmente bem feito de James Franco, como assassino de crianças e mulheres. 

Há medida que Mike o começa a visitar na prisão, para escrever um livro, surge quase uma dependência entre ambos. O olhar de Longo é matreiro e quase romântico para Mike, e Mike encontra-se sobre o feitiço que leva quase todos os jornalistas à ruína (ou à vitória); o da curiosidade, o de saber a verdade.

Talvez seja presunçoso da minha parte mas nunca há verdade nas palavras de Longo, é como olhar para um camaleão e senti, durante quase todas as conversas entre ambos a serenidade de alguém submisso que sabe estar no controlo. A forma como semicerra os olhos numa tentativa de nos fazer mimicar o gesto fez-me ao mesmo tempo inclinar a cabeça e questionar se teria realmente matado toda a familia, ou se estava à beira de um ataque psicótico. 

É neste balanço suave que se mexe Longo, entre o mortal e o inofensivo e talvez seja arrepiante, mas ele sabe tudo sobre Mike, no entanto, enquanto Mike parece tranquilo quanto a esse facto, a sua namorada começa a sentir-se perseguida pelo homem com que o namorado tanto se interessa.

E é tudo um quase neste filme, é como se quisessem que quase acreditássemos que não é culpado, e ao mesmo tempo quase o é. Mike é quase mau e quase bom, os policias são quase maus e quase bons, a única personagem que se mantém no eixo é Jill e nela senti quase uma siamesa da mulher que tinha perdido os filhos e sido morta por Longo. Como se uma fosse a outra e para ela, Longo nunca foi um quase, foi sempre um tudo.

True Story foi uma surpresa... uma espécie de pessoas indesejada, sem a qual, ao fim de alguns meses já não conseguimos viver. É uma formula de sucesso para mim sendo sincera: jornalista; crime; mentiras e uma dificuldade agonizante de perceber o que é real ou não.

As melhores series da Netflix em 2019

dezembro 29, 2019

Eu não sou uma cinéfila, e claramente não sou a pessoa mais atualizada nas ultimas tendências no que toca a séries. Por norma aborreço-me depressa, talvez por isso esta lista, das séries que mais gostei de ver na netflix no ano de 2019 seja útil. 
PS- A lista não se encontra por ordem


1.Friends
Um clássico. Um clichê. Um previsão banal e factual da minha personalidade rotineira. Comecei a ver friends há cerca de um ano e meio, desde então, religiosamente, vejo um (ou mais) episódios por dia. Temo o dia em Friends abandonará o catalogo da Netflix, porque as vozes dos personagens estão completamente adulteradas na HBO.

2.Anne With an E
Estava preparada para ver Anne crescer, tal e qual como a minha mãe viu a "Uma casa na pradaria". Anne é tudo aquilo que devia ser um ideal de humanidade. A vida foi tão má para ela. Passou a infância a saltar de casa de acolhimento, para casa de acolhimento e finalmente, quando encontra um casal de irmãos que a adota, a sua vida começa a entrar nos eixos. 
No entanto, ao contrário do que seria de esperar num conto da Disney, embora ela seja doce, também se zanga, é humana e falha, deixa que o ego a atrapalhe e refrescante ver uma pessoa de verdade como protagonista de uma série com um epicentro tão "melodramático". 
Para além disso, o romance (quase colateral na história) é incrivel. Anne encontra-se constantemente a lutar contra os seus sentimentos por Gilbert e a química deles, especialmente para atores tão jovens, é incrivel... infelizmente nunca vamos poder saber como seriam numa próxima temporada porque a Netflix fez mais uma das suas. Cancelou a série.


3.The Crown
Ver esta terceira temporada de The Crown, fez-me querer rever as duas primeiras novamente. E embora Olivia Colman tenha roubado a cena nesta nova temporada é que dei por mim ainda mais apaixonadas pelas duas primeiras.
Há qualquer coisa numa jovem monarca a tentar fazer malabarismo com o país e a família que nos deixa encantados...provavelmente por não sermos nós naquela situação. Ver The Crown fez com que o meu desejo de infância de ser rainha do mundo morresse, porque na verdade não se é rainha de nada, é se escrava de uma instituição muito antiga, num país que está sempre à frente do progresso.

4. The Royal Of Windsor
Mais no tópico da monarquia e menos no tópico das séries, já que este me parece um documentário com episódios.
The Royal Of Windsor foi incrivel para ver enquanto esperava que a terceira temporada de The Crown chegasse, o nivel de pormonor é incrível. Para quem é um cusco nato pela história dos grandes mandões do mundo, esta série é um MUST.

5.You
Assustadora. Desconcertante. Fez-me querer desisntalar todas as minhas apps de socialização e desaparecer do mapa. Genuinamente, no último episódio fiquei uns dez minutos sentada, a ponderar se havia de voltar a confiar em alguém, porque todos podem ser uns sociopata/serial killers (só de escrever a palavra já tenho medo de atrair alguém através do google).
No entanto, talvez por ter sido tão desconcertante, e tirando o final, fracamente merdoso... encontro-me a querer repetir a dose. Fico só feliz de nunca ter gostado do Will...desculpem...Joe.

6.Rilakkuma
Para quebrar o feitiço de "You", nada melhor que uns desenhos animados japoneses cheios de ursinhos certo? Certo.
Rilakuma foi sem dúvida a minha surpresa do ano. Julgava que o meu amor por desenhos animados tinha ficado perdido no tempo, apenas para ser encontrado de vez em quando em alguma continuação de um filme de que eu tivesse gostado muito em pequena. Foi com agradável surpresa que percebi que adorava estes desenhos animados "adultos", e que não estava só a ver para encher chouriços. Encontrava-me realmente interessada nas lições de moral da série.

7.Bodyguard
Aquela que eu considero a cereja no topo do bolo...não fosse o final tão apressado e diria rapidamente que tinha sido a favorita do ano. Um segurança que protege uma das mulheres mais importantes do reino unido, que tem tudo para a detestar, mas apesar disso precisa de a proteger? Dito assim parece um livro piegas que eu tentaria escrever, mas é bem mais sério que isso já que aborda temas tão importantes com o terrorismo (ambos, o terrorismo que mata pessoas e o politico, que pode acabar por fazer o mesmo, bem vistas as coisas). Vou ser sincera, mais uma vez a química entre personagens salvou a honra do convento e isto só demonstra como muitos filmes são um total falhanço porque não há ninguém que chame "gente do povo" para averiguar os níveis de química nas salas de casting.

8.The Witcher
Embora os efeitos especiais (os monstros) deixem a desejar, a verdade é que esta se tornou a minha série do momento. Nunca gostei de GoT mas vi alguns episódios e a verdade é que não me parece nada a mesma coisa...mesmo nadinha. A única semelhança é talvez a herança de ambas as séries. Grandes livros de fantasia, com já grandes bases de fãs e muitas, talvez demasiadas expectativas em cima. Se GoT desilude pelo seu final, The Witcher desilude por ter um inicio que não se compara à grandiosidade de Luis XIV de GoT...embora deixem-me ser sincera, estive mais atenta a ver o primeiro episódio de The Witcher do que de GoT.
Resumindo, venham muitas temporadas de Geralt e o Burro. 



Lost in translation

novembro 02, 2019

A primeira vez que vi um filme de Sofia Coppola estava numa aula de história, nessa altura fiz com que passassem o filme para trás. Queria que toda a gente visse o all star roxo. Vi aquele filme de Maria Antonieta pelo menos mais quatro vezes. Ontem, antes de ir dormir vi Lost In Translation e senti que tinha sonhado em japonês...sem entender uma palavra.


Aqui estão as coisas que eu sabia sobre este filme: homem e wiskey, mulher numa peruca cor de rosa e Japão. Tudo cortesia do video "Lost In Japan" de Shawn Mendes. 
Aqui estão as coisas que sei agora: Bob, um ator norte americano de meia idade, está na cidade de Tóquio a gravar spots publicitários para uma marca de Wiskey. 
Bob está terrivelmente aborrecido num hotel que mais parece uma torre infinita de quartos e piscinas. Charlotte está no mesmo hotel, aborrecida porque o seu namorado está sempre a trabalhar. O que tem estes dois casos em comum? Sentem-se ambos perdidos numa lingua que não compreendem. 
À medida que começo a ver o o filme, percebo que o ritmo é lento e isso é agradável. De certa maneira este filme é uma cebola, e vai perdendo camadas, vagarosamente. Sentimos de perto a frustração dos personagens porque não percebemos nada do que lhes é dito, os únicos diálogos que contam a história são entre Charlotte, Bob e alguns tradutores. 
É terrivelmente melancólico e damos por nós, não tristes, mas quase vazios a ver o filme, o que de certa forma parece o objetivo, afinal de contas só quando Charlotte e Bob começam a sua aventura pela cidade é que os vemos sorrir. 
Seria de esperar que alguma coisa acontecesse entre eles, afinal de contas há uma energia romântica no ar, mas o mais curioso e aquilo que deixa o filme num tom tão tenso, e ao mesmo tempo tão pouco saturado, é que eles nunca se envolvem. Há esta cena particular, em que estão deitados na cama a falar e só fazem isso. Hoje estamos tão habituados a cenas de sexo só porque sim, que é quase uma lufada de ar fresco ver duas pessoas deitadas numa cama a falar. 
Charlotte e Bob tem provavelmente mais de vinte anos de diferença, mas partilham ambos a melancolia de estarem sozinhos e perdidos numa lingua que ninguém entende e para eles, tudo se perde nos contornos disso. Charl
otte parte um dedo e não percebe nada do que o médico diz e Bob começa a "des detestar" o Japão por causa dela. Sabem o que é que me parece? Aquilo sempre digo: mais vale dois perdidos felizes, do que um infeliz. 
E claro, a terceira pessoa do filme. É engraçado porque sempre que as cenas são gravadas dentro do hotel, ou num estúdio de fotografia, não damos pela câmara, mas assim que são cenas exteriores, lá está ela. Aquela pessoa que podemos visualizar tão bem, a segurar a câmara enquanto passeiam por Tóquio. A passar uma ponte, a filmar a rua, as montanhas, os postes de eletricidade.
Honestamente, para mim, este filme é sobre estarmos sozinhos, mas totalmente sozinhos, não percebermos nada do que nos dizem, e de repente, encontrarmos alguém único, único porque está ali e fala a nossa lingua, mas mais que isso fala connosco mais profundamente do que as palavras que são ditas. Bob e Charlotte podiam não ser almas gémeas, mas naquele momento eram tudo um para o outro.
No final do filme, quando Bob parte de volta aos Estados Unidos diz algo ao ouvido de Charlotte, e quem não percebe, ou ouve somos nós. E pronto, voltam a perder-se na multidão.

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